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Citação

Eu ia retomar os textos do Toca com algo mais feliz, como os diários de bordo de minha viagem para a Itália ou algumas notas de produção do livro Contos Nórdicos. Mas, depois de duas noites acompanhando o meu avô na enfermaria da Santa Casa de Juiz de Fora, resolvi escrever um pouco sobre a sinfonia soturna preenche os corredores de um hospital na madrugada.

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Estou no sétimo andar. Ao meu lado, Seu Vicente consegue, finalmente, cochilar um pouco. O som de sua respiração profunda se intercala com o ronco grave e intermitente, vez por outra interrompido por uma tosse que é, ao mesmo tempo, seca e úmida. Está tranquilo, felizmente!

O mesmo não posso dizer de alguém que está na unidade coronariana. Os auto-falantes acabam de requistar a presença de algumas pessoas, com bastante urgência. A mensagem foi repetida cinco vezes… Isso fez calar um senhor do quarto ao lado, que falava, fazia mais de uma hora, sobre como a nicotina fora expelida de seu corpo na última vez em que ficara internado. Ficou um silêncio estranho, reflexivo, frio e escuro… Somente a respiração profunda, o ronco e os gemidos ecoam pelo quarto, vindos não só do meu lado, mas de todos os cantos e de fora, dos outros leitos, também. É uma canção de uma nota só, ou de várias notas e um só tom, eu não saberia dizer.

Mas sei de um novo som que passa, quase imperceptível pelos meus ouvidos. Ao fundo noto, quando foco minha audição e fico atento ao extremo, uma ladainha quase inaudível, proferida por uma senhora, acompanhante de seu marido, que parou de andar. Faz horas que ela começou a rezar e eu achei que ela já havia parado e estava dormindo. Mas, não, simplesmente diminuiu seu tom de voz e prosseguiu, persistente, pedindo a ajuda divina. É uma oração monotona e triste, carregada de dor e sofrimento, mas ainda assim, é reconfortante.

Somente a chegada do enfermeiro ao quarto interrompe a voz sutil da senhora e alguns dos roncos. É hora de procedimentos de rotina. O som plástico dos copinhos de comprimidos preenche o ambiente. Cada qual ao seu dono. Em seguida vem o gorgolejar de gargantas cansadas tentando engolir a salvação em forma de pílulas. Então, uma conversa aqui, um gemido ali, o tilintar das hastes dos soros, o barulho oco de rodinhas de camas, cadeiras e mesas de instrumentos e, por fim, o “boa noite” e o clique da luz se apagando novamente…

E no escuro, em meio roncos, rezas, arfares e gemidos de dor e agonia, o som dos passos, ora vigorosos, ora arrastados e lentos, é constante nos corredores, assim como os cliques do acender e do apagar intermitente das luzes, o “bip, bip” dos aparelhos medidores de pressão, o uivo dos nebulizadores e até mesmo a flatulência de alguns. Permaneço ouvindo, atento. Agora o objetivo é conseguir um ou outro cochilo e esperar pelo amanhã, pois o que importa é que a sinfonia continue, profunda e constante e que permaneça tudo bem, sempre!

Sons noturnos de uma enfermaria

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Publicado por em fevereiro 28, 2012 em Devaneios

 

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Ditadura da Saúde

Tem tempo que estou querendo falar sobre essa nova ditadura que se instaurou nos meios de comunicação e, principalmente, nas atividades sociais ultimamente: a da saúde! É um tal de “não beba isso, não coma aquilo, faça isso pela manhã, aquilo à noite, passe esse treco na pele, vista esse e não aquele etc…”, que os seus desejos, as suas necessidades e vontades reais ficam sempre em segundo plano. E o pior, se você quer comer uma lasanha cheia de bacon, como essa da foto, tem gente que vai olhar para você com cara de nojo e com uma expressão quase discriminatória.

Vai uma lasanha aí?

Vai uma lasanha aí?

Não é que eu não queira ser saudável ou cuidar de minha saúde para levar a vida com um mínimo de conforto físico, mas abarcar a todas as idéias “saudáveis” que estão na mídia o tempo todo dizendo (ou melhor, ditando) como viver a vida, pode provocar um profundo desconforto mental, pelo menos para mim. Essa preocupação exacerbada com a saúde, ou ainda mais, com o físico, está formando seres humanos “robozinhos”, que seguem manuais da boa existência e se tornam pessoas cada vez mais frustradas consigo mesmas. É claro, não conseguem alcançar as promessas mirabolantes das revistas e chegar àquele corpo escultural das modelos que são apresentadas junto às matérias.

A coisa é tão feia que outro dia aquele programa da Globo “Bem Estar” demonstrou como usar o papel higiênico. Isso mesmo! É quase inacreditável, mas, desculpem o termo, alguém foi na TV ensinar como limpar a bunda! E o pior, tem gente que embarca. Um colega comentou outro dia que a avó dele, com mais de 70 anos, começou a higienizar as frutas que ia comer de maneira diferente (usando produtos e misturas próprias). Fazia 70 anos que ela simplesmente lavava as frutas de maneira adequada antes de comer e, de repente, surge alguém na TV dizendo que está errado e que deve usar produtos químicos ou sei lá o que para lavar…

O pior disso tudo é que os vilões de hoje serão os heróis de amanhã. Já parou para pensar em quantas teorias mirabolantes já existiram sobre o ovo. Teve médico sendo taxativo ao proibir consumo de ovos e hoje é incentivada a alimentação com ovos… Temos que ter em mente que por trás de cada matéria, de cada notícia, falando sobre os benefícios ou os malefícios de um determinado alimento, produto ou substância, há sempre a indústria, ávida por ganhar novos clientes com a oferta de uma vida saudável.

Não sou contra levar uma vida saudável. Pelo contrário. Sou a favor da atividade física, de uma alimentação balanceada e de uma vida dentro de limites. Mas esse exagero e esse radicalismo no que se diz a respeito da saúde é que me deixa indignado. Daqui a pouco ficaremos como nos filmes de ficção científica, em que o sal é proibido e em que para comer uma fatia de bacon você deve comprar o produto de um porcotraficante.

E, para não dizer que sou radical, compartilho abaixo o vídeo da Super Interessante, que consegue se mostrar contra as regras da “hiper-saúde”, mas ao mesmo tempo apresenta umas regrinhas bem simples e sem apelo à milagres (aliás, foi por causa desse vídeo que decidi escrever esse post):

 
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Publicado por em outubro 21, 2011 em Devaneios, Internet, Inutilidades, Opinião

 

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Ainda sobre o mérito…

Não vou falar muito, o vídeo fala por si só. O comentarista é meio nervosinho, mas fala verdades que deveriam ser ditas sempre na TV. Então, como falei de Mérito e Demérito aqui, achei bastante pertinente o vídeo abaixo:

 
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Publicado por em outubro 18, 2011 em Devaneios, Opinião

 

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Mérito e Demérito

Faz tempo que eu não escrevo aqui. Em parte por falta de tempo e em parte por desânimo e por estar com a cabeça voltada para outras questões. Mas, dizem os pensadores, cabe aos escritores transformarem em palavras as suas experiências, angústias, felicidades e infelicidades, ou seja, os detalhes de suas vidas e as acepções que depreendem destes detalhes. Por isso, decidi escrever sobre uma palavra que vem pipocando na minha cabeça há alguns dias: mérito.

mérito
mé.ri.to
sm (lat meritu) 1 O mesmo que merecimento. 2 Valor moral ou intelectual. 3 Aptidão, capacidade, superioridade. 4 O que torna uma pessoa, obra ou ação dignas de elogio, estima ou recompensa. 5 Aspecto de um ato administrativo que o torna adequado, conveniente e oportuno para o interesse público. 6Dir Matéria sobre que versa, no processo, o pedido do autor.Antôn (acepções 1, 4 e 5): demérito. sm pl Bons serviços no exercício de um cargo ou função. Sistema do m.: sistema de recrutamento dos funcionários públicos por concurso de provas.

Conforme o dicionário Michaelis, acima, podemos e devemos relacionar o mérito com recompensa. O que significa que se alguém é bom em alguma coisa, ou faz por merecer, deve receber uma recompensa por isso. Deve ser premiado. É esse conceito que permeia as competições esportivas, por exemplo, algumas saudáveis relações de trabalho e até mesmo algumas instâncias artísticas. Isto é, se você é bom, é dedicado, tenta fazer sempre o melhor e se compromete com aquilo que faz, você deve ser recompensado por isso, deve receber benesses de seu trabalho e de seu esforço, certo?

Nem sempre…

Infelizmente, em algumas (ou muitas) instâncias do serviço público no Brasil a meritocracia ainda não é uma realidade. Ser dedicado, estar à frente quando necessário, assumir responsabilidades e se comprometer de verdade com o trabalho não se configuram em prêmios e sim na geração de mais trabalhos, mais responsabilidades, mais dores de cabeça e mais comprometimento. Enfim, seja bom e ganhe mais trabalho: esse é o prêmio que um servidor público brasileiro recebe. E muito disso advém da confiança que se deposita no bom funcionário. É para ele que acabam indo as tarefas mais complicadas ou de maior importância ou responsabilidade. Pois, sabe-se, ele pode conseguir resolver ou pelo menos vai se esforçar para conseguir fazê-lo.

O Dedicado

O Dedicado

Mas aí alguém pergunta: e o mal funcionário? O que acontece com ele? Esse, infelizmente, se transforma num estorvo para a administração. É aquele cara complicado que sabe fazer somente os trabalhos mais simples, repetitivos e que não está disposto a pensar ou a gastar seu tempo e sua disposição com o serviço. Nem no horário de trabalho. Geralmente é um “reclamão”, que quer “fazer” seu trabalho sem ser incomodado. E quando é incomodado, sai de baixo! Recorre a conchavos políticos, a amigos e até àquela pastinha em que guarda segredinhos comprometedores de grande parte de seus “colegas” de trabalho. Isso sem contar na confusão que arruma… Ou seja, esse é um cara que todos querem deixar quieto mesmo, fazendo o servicinho medíocre dele, sem incomodar e sem deixar que ele incomode os outros. Aliás, porque mexer com ele se temos o funcionário exemplar (aquele do mérito) que vai fazer as tarefas mais complicadas sem reclamar?

O Mal

O Mal

Mas o pior não é o fato de imputar a uns poucos (aqueles do mérito) os deveres mais importantes e mais complicados. O efeito mais perverso disso é a desmotivação. Sabemos que a administração pública ainda está caminhando a passos lentos em questões relacionadas à motivação. Mas quando a lógica do mérito não é aplicada, a tendência é que seja criada uma enorme cadeia desmotivacional, que culminará com a transformação do bom funcionário, o do mérito, no mal funcionário, o do demérito. É simples: porque eu vou me esforçar, trabalhar com afinco e me desgastar se no final as recompensas são as mesmas? Ou melhor, os vencimentos são os mesmos, mas a recompensa do funcionário do mérito é simplesmente aquilo que lhe dá o mérito: mais trabalho! É claro que dizendo isso, eu estou desconsiderando qualquer hombridade por parte do bom funcionário que, provavelmente, é bom por ser honesto com o serviço e dedicado por natureza. Mas é bem possível que nem o mais comprometido resista a anos de mérito premiado com demérito.

E as alternativas que restam: abandonar o barco ou tornar-se mais um parasita…

E, no final, o serviço público, que tem as ferramentas necessárias para ser exemplar, que deveria ser o espelho para as outras esferas e que, sobretudo, tem o dever de servir bem a uma população que paga (e caro) por ele, acaba caindo naquele velho conceito: “se é público não funciona”.

Não sou administrador, não sou adepto de teorias administrativas enlatadas dos países desenvolvidos, sou extremamente crítico a modelos motivacionais (principalmente aqueles que tentam suplantar o simples e justo pagamento de um salário adequado), mas acho que alguns setores da administração pública estão precisando “comer muito angu” para aprender, de verdade, como fazer o mérito valer, tão somente, o seu significado no dicionário.

 
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Publicado por em agosto 26, 2011 em Devaneios

 

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A realidade, a olho nu, é nauseante…

Infelizmente não vivo de escrever, e preciso me dedicar a um trabalho na Prefeitura de Juiz de Fora que é, muitas vezes penoso demais do ponto de vista psicológico. Procuro não falar a respeito, afinal, algumas coisas, quanto mais se remexem em nossas cabeças, mais estrago causam… Mas algumas vezes, o contato direto com determinadas realidades nos fazem sentir a necessidade de compartilhar algumas coisas para mostrar que o mundo à nossa volta, bem pertinho de nós, pode ser cruel e desumano. Read the rest of this entry »

 
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Publicado por em março 21, 2011 em Devaneios, Opinião

 

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Paranóia com o logotipo da copa

Este blog nunca teve uma orientação política. Aliás, eu sempre procuro ser esquivo à questões relacionadas à política e ao governo. Mas depois que começou a circular um e-mail dizendo que o PT está roubando as cores do país eu tive que fazer esse pequeno post sobre a paranóia que se instaura na internet. Read the rest of this entry »

 
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Publicado por em julho 16, 2010 em Design, Opinião

 

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Copa do Mundo é Design???

Logotipo oficial - tire suas próprias conclusões

Logotipo oficial - tire suas próprias conclusões

Não, eu não estou repetindo este post Copa do Mundo é Design‘. As interrogações acima nasceram depois que foi divulgada a logomarca da Copa do Mundo de 2014. Como vi alguém comentar, este logotipo é uma atrocidade!

No post a que me referi acima, comentei os cartazes de todas as copas e comentei como o do Brasil, de 1950, era bonito e a frente do seu tempo (nunca época em que nem se pensava em photoshop etc.). Agora, parece que resolveram colocar caca no negócio. O logotipo novo é horrível. Ele não só tem várias falhas de composição, mas também é feio, esquisito e, sei lá, parece ter sido feito por uma criança! Read the rest of this entry »

 
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Publicado por em julho 13, 2010 em Design, Opinião

 

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