RSS

Mérito e Demérito

26 ago

Faz tempo que eu não escrevo aqui. Em parte por falta de tempo e em parte por desânimo e por estar com a cabeça voltada para outras questões. Mas, dizem os pensadores, cabe aos escritores transformarem em palavras as suas experiências, angústias, felicidades e infelicidades, ou seja, os detalhes de suas vidas e as acepções que depreendem destes detalhes. Por isso, decidi escrever sobre uma palavra que vem pipocando na minha cabeça há alguns dias: mérito.

mérito
mé.ri.to
sm (lat meritu) 1 O mesmo que merecimento. 2 Valor moral ou intelectual. 3 Aptidão, capacidade, superioridade. 4 O que torna uma pessoa, obra ou ação dignas de elogio, estima ou recompensa. 5 Aspecto de um ato administrativo que o torna adequado, conveniente e oportuno para o interesse público. 6Dir Matéria sobre que versa, no processo, o pedido do autor.Antôn (acepções 1, 4 e 5): demérito. sm pl Bons serviços no exercício de um cargo ou função. Sistema do m.: sistema de recrutamento dos funcionários públicos por concurso de provas.

Conforme o dicionário Michaelis, acima, podemos e devemos relacionar o mérito com recompensa. O que significa que se alguém é bom em alguma coisa, ou faz por merecer, deve receber uma recompensa por isso. Deve ser premiado. É esse conceito que permeia as competições esportivas, por exemplo, algumas saudáveis relações de trabalho e até mesmo algumas instâncias artísticas. Isto é, se você é bom, é dedicado, tenta fazer sempre o melhor e se compromete com aquilo que faz, você deve ser recompensado por isso, deve receber benesses de seu trabalho e de seu esforço, certo?

Nem sempre…

Infelizmente, em algumas (ou muitas) instâncias do serviço público no Brasil a meritocracia ainda não é uma realidade. Ser dedicado, estar à frente quando necessário, assumir responsabilidades e se comprometer de verdade com o trabalho não se configuram em prêmios e sim na geração de mais trabalhos, mais responsabilidades, mais dores de cabeça e mais comprometimento. Enfim, seja bom e ganhe mais trabalho: esse é o prêmio que um servidor público brasileiro recebe. E muito disso advém da confiança que se deposita no bom funcionário. É para ele que acabam indo as tarefas mais complicadas ou de maior importância ou responsabilidade. Pois, sabe-se, ele pode conseguir resolver ou pelo menos vai se esforçar para conseguir fazê-lo.

O Dedicado

O Dedicado

Mas aí alguém pergunta: e o mal funcionário? O que acontece com ele? Esse, infelizmente, se transforma num estorvo para a administração. É aquele cara complicado que sabe fazer somente os trabalhos mais simples, repetitivos e que não está disposto a pensar ou a gastar seu tempo e sua disposição com o serviço. Nem no horário de trabalho. Geralmente é um “reclamão”, que quer “fazer” seu trabalho sem ser incomodado. E quando é incomodado, sai de baixo! Recorre a conchavos políticos, a amigos e até àquela pastinha em que guarda segredinhos comprometedores de grande parte de seus “colegas” de trabalho. Isso sem contar na confusão que arruma… Ou seja, esse é um cara que todos querem deixar quieto mesmo, fazendo o servicinho medíocre dele, sem incomodar e sem deixar que ele incomode os outros. Aliás, porque mexer com ele se temos o funcionário exemplar (aquele do mérito) que vai fazer as tarefas mais complicadas sem reclamar?

O Mal

O Mal

Mas o pior não é o fato de imputar a uns poucos (aqueles do mérito) os deveres mais importantes e mais complicados. O efeito mais perverso disso é a desmotivação. Sabemos que a administração pública ainda está caminhando a passos lentos em questões relacionadas à motivação. Mas quando a lógica do mérito não é aplicada, a tendência é que seja criada uma enorme cadeia desmotivacional, que culminará com a transformação do bom funcionário, o do mérito, no mal funcionário, o do demérito. É simples: porque eu vou me esforçar, trabalhar com afinco e me desgastar se no final as recompensas são as mesmas? Ou melhor, os vencimentos são os mesmos, mas a recompensa do funcionário do mérito é simplesmente aquilo que lhe dá o mérito: mais trabalho! É claro que dizendo isso, eu estou desconsiderando qualquer hombridade por parte do bom funcionário que, provavelmente, é bom por ser honesto com o serviço e dedicado por natureza. Mas é bem possível que nem o mais comprometido resista a anos de mérito premiado com demérito.

E as alternativas que restam: abandonar o barco ou tornar-se mais um parasita…

E, no final, o serviço público, que tem as ferramentas necessárias para ser exemplar, que deveria ser o espelho para as outras esferas e que, sobretudo, tem o dever de servir bem a uma população que paga (e caro) por ele, acaba caindo naquele velho conceito: “se é público não funciona”.

Não sou administrador, não sou adepto de teorias administrativas enlatadas dos países desenvolvidos, sou extremamente crítico a modelos motivacionais (principalmente aqueles que tentam suplantar o simples e justo pagamento de um salário adequado), mas acho que alguns setores da administração pública estão precisando “comer muito angu” para aprender, de verdade, como fazer o mérito valer, tão somente, o seu significado no dicionário.

Anúncios
 
6 Comentários

Publicado por em agosto 26, 2011 em Devaneios

 

Tags: , , , , ,

6 Respostas para “Mérito e Demérito

  1. Daniel

    agosto 26, 2011 at 2:13 pm

    É grande Cristiano (cuty), só tenho uma coisa a dizer. Faço as suas palavras minhas, concordando totalmente com tudo exposto em seu texto, afinal de contas sabe muito bem onde trabalho.

     
  2. Nayana

    agosto 26, 2011 at 4:36 pm

    É ruim ler o post e identificar tanta gente dos dois lados… ACORDA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA!

     
  3. Claudio

    agosto 28, 2011 at 6:51 pm

    Cristiano, é triste ver como o reconhecimento beira mais a uma punição, pois as partes envolvidas não foram ouvidas. Isso, mais uma vez, só vem comprovar que a meritocracia no serviço público só existe para aquelas pessoas que fazem parte de conchavos e dividem interesses comuns.
    Além disso, casos como esse, como você mesmo escreveu, servem apenas para nos desmotivar.

     
  4. Leila I Passos

    agosto 29, 2011 at 2:23 pm

    Cris, acabei há pouco de falar aqui na Regional o que vc brilhantemente escreveu. Tenho tentado me policiar para avistar lá ao longe (bem longe) o contribuinte, especialmente os mais humildes e desinformados, que merecem nosso esforço em aprender mais, interferir mais, para suavizar uma situação de descaso com a “coisa pública”. Porque na verdade a grande descoberta, embora possa até parecer patético, foi de saber que na Administração Pública a Coisa Pública é o que menos importa! Valores como mérito e demerito, competencia e incompetencia, impessoalidade/pessoalidade não são mais do que palavras e na maioria das vezes somos “convidados” pelos “modus operandi” dos que “não devem ser incomodados” por serem incompetência. Não sei o que nos aguarda, mas confesso que o meu ânimo de hoje é bem menor do que o de antes. A sensação de que é possivel mudar esse balcão é cada vez mais pequena.

     
  5. eveline

    setembro 2, 2011 at 5:54 pm

    Não esperava menos que isso de você… Brilhante.
    Eveline, Fernanda e Tatiana

     
  6. Cristiano Cuty

    setembro 4, 2011 at 11:29 am

    Obrigado a todos pelos comentários… Pelo visto o texto cumpriu sua missão: externar o que eu estava sentindo e fazer um crítica ao modelo de administração pública em nosso país. Quem quiser, pode espalhar por aí! 🙂

    Abraços.

     

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: