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Inibição

06 jul

Ontem estava arrumando as minhas papeladas e acabei encontrando um texto antigo, lá de 1999, sobre a censura que impomos a nós mesmos. Achei interessante e, para não cair no esquecimento, eu o reproduzo aqui:

A pior censura é aquela que se instala em nós sem que percebamos.
– Érico Veríssimo

O pensamento sabiamente assertivo de Érico Veríssimo cabe quase que perfeitamente nos ideais desenvolvidos pela cultura de massa dos séculos XIX a XXI. A implementação de modelos, arquétipos e estereótipos na cultura formadora do pensamento humano nessa era é a prova cabal de que nos tornamos cada vez mais bonecos pré-manipulados, robôs comandados por um controle invisível, dos quais não podemos nem enxergar os fios.

Nessa idade contemporânea notamos crescer ao nosso redor valores, preceitos e princípios pré-determinados e anteriormente concebidos por uma espécie de formatação social que visa a padronização do ser humano. Essa avassaladora gama de moldes bombardeia todos nós em nossos “eus” mais profundos, corrompendo a nossa estrutura individual e fazendo de nós, homens e mulheres, seres cujas vontades mais primitivas e desejos mais singulares se perdem num mar do todo, cuja maré obedece à força do coletivismo.

A todo tempo recolhemos e subjugamos nossas impressões e perspectivas mais íntimas e controlamos nossas relações sociais a fim de obedecer ao padrão. Fazemos isso sem notarmos, instintivamente. Uma espécie de censura se instaura em nossa maneira de ser, apartando toda e qualquer ação que atente contra os princípios morais estabelecidos, os quais acreditamos, piamente, serem nossos. Então, por mais que não percebamos, vivemos preenchidos por um temor gigantesco de que o julgamento da sociedade nos condene à alienação e ao exílio social. Por isso, esmagamos o nosso eu verdadeiro e nos vemos emitindo opiniões que nem temos certeza se são realmente nossas.

Deste modo, esta estranha censura velada, que permeia nossos sentimentos e pensamentos mais profundos faz com que nossa realidade individual se perca num emaranhado de realidades coletivas. Somos vítimas de uma constante inibição inconsciente, a qual se espraia na coletividade humana através de gerações, formatando o cônscio, o comum e o incomum, criando um padrão, determinando o que podemos chamar de “o sistema”. Um sistema que nos cria, nos forma, nos prende em suas garras.

Assim, num mundo em que impera a miséria intelectual e cultural e em que a verdadeira sabedoria humana pertence somente aos mestres do passado, resta apenas a fuga do padrão, da formatação e da censura imperceptível. Resta apenas, e pelo menos, tentar ser diferente e salvar o pouco que ainda existe de nós mesmos.

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Publicado por em julho 6, 2010 em Devaneios

 

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