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Linha direta entre mídia e Justiça

22 abr

Presente de modo fundamental no programa Linha Direta, o conflito Mídia X Justiça não se restringe apenas a este programa em si, mas está difundido em vários produtos da mídia. Além disso, trata-se de uma abrangente proposta mídiatica, que tem por foco os poderes constituídos (executivo, legislativo e judiciário), no sentido de apresentar a mídia como elemento de defesa da população e de interlocução entre esta e seus representantes.

Para compreender este conflito, deve-se recorrer a vários conjuntos de teorias, sendo que a lacuna de uma destas teorias deve ser preenchida por dados de outra. Para tanto, recorre à formação da sociedade brasileira, a qual seria constituída por duas coletividades: um Estado nacional moderno e igualitário (fundamentado no individualismo burguês) e uma sociedade hierarquizada, aristocrata e fundamentada, sobretudo, na herança colonial. Esta formação dual do todo brasileiro cria uma prática jurídica também marcada pela dualidade. Onde os conflitos sociais são mantidos implícitos, atendendo à estrutura desigual da sociedade.

A prática jurídica é hierarquizada assim como a sociedade. Apesar de dissimulada em um conjunto de leis fundamentadas no direito universal da igualdade, na prática o funcionamento se diferencia para cada patamar social. “Todos iguais, mas uns mais iguais do que os outros”. Esta dissonância nos dispositivos legais acaba por determinar a baixa credibilidade das instituições policiais e judiciárias.

É neste contexto que a impressa (e a mídia como um todo) se apóia. Uma vez que os poderes constituídos falham em cumprir com sua obrigação (permeada por valores frágeis e fugazes), cabe à mídia assumir o compromisso de defesa da ordem pública e da democracia. A mídia atribui-se da autoridade de poder moderador (o quarto poder), que deve cobrar a correção e o bom funcionamento dos outros três poderes. “(…) os jornalistas se vêem tentados a realizar simbolicamente a justiça que ela não é capaz de fazer”.

Para isso a mídia utiliza-se de uma estratégia de realização simbólica da justiça. No caso do programa Linha Direta tal estratégia é apresentada de duas maneiras: o programa reconstitui o processo judicial (apresentação de provas, depoimento de testemunhas, reconstituição do crime etc.), a justiça é feita de fato quando o criminoso é preso através da denúncia dos telespectadores. A mídia não substitui a justiça efetivamente (apenas simbolicamente), mas mostra o quão falha esta é e atua fazendo com que ela funcione corretamente. Além disso, o programa Linha Direta, em especial, faz o papel do justiceiro, do vigilante, que atua onde a lei falha.

A utilização do estereótipo do criminoso é outra característica do programa Linha Direta. Os delitos apresentados são sempre aqueles que têm alguma aproximação simbólica com os telespectadores. Algo que poderia acontecer com qualquer um que está assistindo ao programa. A violência é espetacularizada (apresentando todos os pormenores do crime, excesso de drama), os delitos não são de classes mais elevadas, mas de pessoas do povo. Com isso, tem-se a criação do medo social, a sensação de que aquela realidade está presente ao redor de qualquer um, ainda que o risco não seja real.

A estetização da violência contribui para a formatação da opinião pública a respeito dos crimes e dos criminosos. A violência é apresentada de forma corriqueira, com destaque em relação a outros problemas sociais. Com isso, cria-se a percepção de que a lei é desnecessária e a justiça incompetente, sendo a imprensa o mecanismo de salvação, o elemento que pode fazer a máquina funcionar corretamente.

A mídia, então, constrói a “verdade” através de suas imagens e da transmissão em tempo real (mostrando que está presente nos momentos certos como um verdadeiro herói). Remontando de forma simulada todo o inquérito policial, a mídia ignora a objetividade no intuito de produzir um sentido específico para os fatos, apontando para a incompetência do poder público, o pânico social e a sensação coletiva de vingança, necessidade de fazer justiça. Assim, coloca nas mãos do povo a possibilidade de fazer aquilo que o poder judicial e a polícia não foram capazes.

“Poder ubíquo, que se efetua a partir da imagem, com objetivo de punir a imagem, e multiplica esta punição na retina de cada espectador que, indignado, efetiva a denúncia, fazendo justiça com as próprias mãos. Estas, pelo menos (ou ainda pior), sequer ficarão sujas do sangue deste linchamento virtual.”

Baseado no livro “A Punição pela Audiência”, do jornalista Kleber Mendonça.

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Publicado por em abril 22, 2008 em Opinião

 

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