RSS

Punição

18 ago
Monograma do Arcanjo

Monograma do Arcanjo

Conforme prometido, está aí o conto introdutório do Crepúsculo 3ª Edição. Este é um conto mais de ação, com tiros e tudo mais. Mas a atmosfera “dark” do Crepúsculo está mantida (inclusive com alguns elementos do Liber Des Ritae). Divirtam-se!

PUNIÇÃO

A chuva castiga meus ombros cansados. O frio corta como se uma afiada lâmina percorresse a extensão de meu rosto marcado pelo tempo. É difícil caminhar madrugada afora pelas ruas úmidas da cidade lembrando de tudo pelo que passei nesses anos a serviço do Santo Padre. É penoso ter sempre as mãos crispadas sobre o punho de uma arma pronta para disparar ao menor sinal de ameaça. É árduo prosseguir nesse caminho de mortes sentindo o crucifixo manchado em sangue pendendo sobre meu peito, as cicatrizes profundas pelo meu corpo e o desespero de minha alma conturbada por tantas desgraças e perjúrios.

Poderia repetir, mais uma vez, que esta seria a última noite, a última empreitada… Mas não! A cruz rubra tatuada em meu tronco impinge-me ao dever pleno. Confesso que por milhares de vezes desejei não possuir esse símbolo estampado em minha pele. Não foram poucas as oportunidades em que aspirei uma vida mundana, longe desta maldita guerra e afastado dos devaneios de uma sociedade cada vez mais intolerante. Mas ser parte deste cenário não é algo passageiro. Infelizmente, estar permeado por esse fétido mar de sangue não é uma opção. A Guerra Santa cobra seu preço a cada vez que a pólvora das armas preenche nossa atmosfera estagnada. Sobrevivência, é o mínimo que podemos angariar frente ao inimigo e, até mesmo, aos “companheiros” de combate.

Companheiros… Lá está o carro de George mais uma vez me aguardando, como em muitas outras missões. Em seu interior, Anna ajeita seus pertences na maleta de primeiros socorros enquanto, ao volante, o velho companheiro de combates analisa suas anotações e mapea os destinos que percorreremos esta noite. A velha história parece se repetir novamente. Já perdi a conta de quantas vezes vi esta cena em minha vida a serviço da Igreja. A cada vez que acontece, temo não se repetir novamente, mas não me abalo, sigo, corajoso…

Entro no carro e George me cumprimenta, tenso. Anna não move um músculo preocupada com o material de socorro. Pergunto o que está havendo e George apenas me passa um papel amassado, manchado em sangue e com uma caligrafia que, embora trêmula e disforme, não deixo de reconhecer como a de Lara. Antes que eu possa ler o texto, George me passa uma foto onde Lara encontra-se amarrada a uma cruz de cabeça para baixo. Súbito, sinto minha garganta secar e os papéis em minhas mãos se encharcam em meu suor. George aperta meu ombro tentando me acalmar. Tento esboçar alguma reação quando ele retira os papeis de mim, mas não consigo fazer nada, senão chorar.

Nunca foi segredo meu sentimento por Lara. Sabíamos que era contra os dogmas, mas tínhamos certeza de que Deus era capaz de compreender o amor verdadeiro que sentimos um pelo outro. Nunca imaginei que me veria diante de tal situação. Nunca pensei que teria a vida de Lara em minhas mãos.

Meus punhos se acirram com toda a ira que pude acumular ao longo destes anos. Perco o controle de meus atos, rejeito a todos e tenho vontade de fazer com que tudo não passe de uma mentira, de uma brincadeira de péssimo gosto! Mas não, não dessa vez. Tento me acalmar, mas a cada vez que vejo o rosto desesperado e melancólico de Lara na fotografia, tenho nojo, ojeriza, dessa maldita guerra! Antes que destrua tudo a minha volta, Anna me entorpece com mais um de seus poderosos anestésicos. Desmaio…

Finalmente acordo. Peço a Deus que tudo tenha sido um pesadelo, talvez o pior dos pesadelos. Fico decepcionado ao ver no painel do carro uma prancheta com anotações e a foto de Lara. “Eles querem que libertemos Joshua, em troca da liberdade de Lara, mas o Visitador da cidade disse que ele foi condenado pela Inquisição… Deve estar morto.” Anna esclarece os fatos enquanto recobro a memória sem acreditar que tudo isso está acontecendo. Comparam Lara a Joshua, aquele ser podre! O carro se move em alta velocidade. Abro o vidro a fim de tomar algum ar e confiro se meus equipamentos estão em ordem para que possamos agir. Olho para George e ele, com ar severo, pede que me acalme. Seguimos noite adentro em uma estrada barrenta, com a chuva batendo fortemente sobre o veículo e a mata lateral resvalando a lataria como espadas em combates.

Pego a prancheta sobre o painel tentando evitar a foto de Lara e observo as anotações feitas por George. Após verificar alguns mapas e a paisagem ao redor, percebo que nos direcionamos para a antiga Twilight, uma boate afastada da cidade, fechada há tempos atrás por nossa ação em conjunto com Ritualistas do Candomblé. Ação condenada por nossos superiores, porém demasiadamente eficaz. Lembro-me, ainda hoje, de quando uma tal de Elisa nos alertou a respeito das atividades dos donos da Twilight. Não durou muito para que organizássemos nossos esforços e puséssemos em prática todo o aparato para romper com as atividades desta organização.

Mas a Igreja Negra não é mais uma simples sociedade satânica como já foi nos tempos áureos da Inquisição. Não acreditávamos, mas eles cresceram. Agora, estão se vingando, querendo de volta o único “merda” que conseguimos capturar sem despertar o interesse da imprensa. Pensávamos que eram apenas um bando de traficantes sujos por trás de uma casa noturna, mas era muito mais que isso. A Twilight, provavelmente, é um templo profano e, mesmo estando fechada, continua servido para os desígnios do demônio sobre a Terra.

George pára o carro em meio a alguns arbustos. Saltamos com cautela e logo posso avistar a imponente construção que era a antiga boate. Tenho vontade de romper a vegetação e penetrar no local até ter, face a face, o desgraçado que fez isso. Mas Anna me reprime. George, tentando permanecer tranqüilo, salta do carro encaixando a mira laser em sua AK-47, enquanto dá um último trago no cigarro. Nos entreolhamos por alguns segundos, como se aquela fosse a última de todas as nossas missões. Desta vez, na verdade, uma missão pessoal. Como de costume, rezamos pedindo a força de Deus em nosso auxílio e, por mais alguns instantes, observamos uns aos outros na tentativa, quase vã, de acreditarmos que tudo correrá bem.

Anna retira de sua maleta um pequeno crucifixo branco e me entrega pedindo que o coloque amarrado ao pulso. “Isso vai lhe ajudar a manter a calma”, ela afirma enquanto amarro o talismã no punho. Após isso, George traça a estratégia de invasão pedindo que eu entre pelos fundos, em busca de Lara, enquanto ele e Anna farão “barulho” pela frente. Tento questionar esse esquema suicida, mas logo percebo que não há outra alternativa senão correr todos os riscos para tentar resgatá-la. Meio transtornado, imagino sua angústia nas mãos destes animais e não percebo que meus companheiros partem em direção à entrada da boate.

Retomando meus sentidos, corro em direção aos fundos do local com minha .44 nas mãos, me aproximando o suficiente para observar a entrada. Não noto nenhum segurança com uma primeira olhada, mas após uma observação mais detalhada posso perceber, num canto escuro, uma figura encapusada, assentada em um pequeno banco, olhando atentamente em todas as direções. Não perco meu tempo, nem tampouco minha raiva. Munido de um garrote, esgueiro-me por entre arbustos e latões de lixo até estar bem próximo da vítima e poder dar o “bote”. Com os punhos mais que acirrados aperto o pescoço do homem impedindo-o até mesmo de gritar. Sinto sua respiração se esvaindo e suas forças desfalecendo, mas não me contento com um desmaio. O segurança vomita seu sangue podre sobre minhas mãos e cai, inerte, morto…

Estranhamente não me sinto arrependido desta vez. As várias mortes parecem algo costumeiro agora. Revisto o corpo do patife e, além de drogas, encontro apenas alguns documentos, munição e um molho de chaves. Pego as chaves ao mesmo tempo em que espalho toda a munição de sua arma pelo pátio e peço ao Pai que cuide dessa alma perturbada. O crucifixo de Anna realmente me ajuda a manter a calma, porém amplia minha frieza de atitudes.

Sem perder mais tempo, entro pela pequena e suja porta dos fundos. Furtivo, cruzo um corredor escuro, passando por banheiros e pela cozinha do local, ambos vazios. Não demoro a abrir uma porta-corta-fogo no fundo do corredor e a subir uma escada de metal logo após a passagem. No segundo piso, percorro espaços onde posso sentir o fervilhar de antigos prazeres e notar restos de bebidas espalhados pelo chão. Atravesso um salão observando ao redor e, ao abrir a porta que leva a uma suposta “sala vip” fico estático com a cena.

Do outro lado, me deparo com uma ofuscante luz posta propositadamente sobre uma grande cruz invertida que pende do teto. Ao chão, uma poça de sangue é alimentada por gotas vindas da cruz. Não movo um músculo e mesmo minha coragem parece falhar quando tento olhar diretamente para o objeto pendente. Paralisado, enjoado e trêmulo, vejo Lara pendurada, amarrada ao símbolo satânico como um cristo. Seu corpo nu, preenchido por cortes e arranhões em toda a sua extensão, é marcado por hematomas e símbolos profanos pintados com seu próprio sangue. Fico inerte, sem ação, apenas observo a cena como se tudo aquilo fosse um devaneio louco e débil. Perco-me em visões e sinto a morte, mas não sei de quem, onde e como…

Súbito, volto a mim com o impacto fulminante de um projétil quente sobre meu tronco. Vejo a cruz girar sobre minha cabeça como num réquiem alucinado e sem hora marcada. Temo ter visto meu próprio funeral e quase choro ao sentir minhas costas batendo no chão frio e meu sangue manchando, por uma vez mais, o crucifixo em meu peito. Mas logo recupero minha consciência e noto que ainda não é minha vez.

Rolo por entre cadeiras procurando abrigo para a chuva de tiros e me arrasto derrubando algumas mesas, tentando me proteger. Rapidamente, consigo apoiar meu braço sobre uma poltrona e mirar a porta. Rezo para que Lara não esteja morta e, concentrando-me, sinto minhas faculdades físicas se ampliarem. Não demoro em partir para uma posição mais arrojada e disparo o primeiro tiro, certeiro, na cabeça do desgraçado que se aproxima em verificação. Ele cai sobre as mesas e dou mais um disparo para certificar que não me incomodará mais. Ao mesmo tempo, corro para outro canto de forma furtiva, mantendo Lara sob meu ângulo de visão.

Por sorte, percebo, em meio à penumbra, uma mulher mirando a cabeça de Lara. “Você tem dez segundos para largar sua arma e caminhar lentamente em nossa direção, do contrário, a cabeça dela vai virar comida de ratos”, grita a mulher, nervosa. Antes que ela dispare em minha direção, saio de sua vista e a perco da minha também. Meu desejo é invadir o salão atirando para todos os lados, mas olho para o crucifixo de Anna em meu pulso e reluto em fazê-lo. Os segundos passam como as gotas de suor que escorrem pelo meu rosto. Penso, observo, tento analisar a situação e, quando decido-me por largar a arma e me entregar, ouço o som retumbante de um tiro ecoar por todo o prédio.

Um misto de ódio e arrependimento invade meu coração. Arranco o crucifixo alvo de meu braço. Agarro o punho de minha arma com toda força e entro no salão disparando em direção à “meretriz” que apontava para Lara. Cravo seu corpo de balas sem piedade. Corro, observo e empunho a arma em direção ao vulto que cruza minha lateral. Sem pensar, volto-me para a minha direita alvejando o outro assassino, minha munição acaba ao meu último tiro. Solto a arma, ajoelho e choro. Lara se foi…

Tenho medo de olhar para cima, para a cruz invertida. Tenho medo do devir da vida a partir de agora. Fomos contra os dogmas, pecamos, fomos punidos. Fui castigado por minha insensatez e por minha inoperância frente a essa situação diletante. Mas agora não me resta mais nada…

“O que foi que você fez?”, uma voz feminina melancólica me questiona como se eu fosse o pior de todos os demônios. Antes que possa me virar para observar, vejo Anna passando por mim, desesperada em direção ao homem que baleei. Confuso, levanto-me enxugando as lágrimas em meus olhos e tentando observar do que se trata aquela cena. Anna abaixa-se sobre o corpo inerte do indivíduo, como sempre faz ao socorrer um de nós. Ainda sem entender, vejo, logo à frente um algoz do diabo morto por uma bala que não fui eu que disparei. Isso me perturba ainda mais e, quando começo a entender, escuto a voz de Anna professando uma extrema unção sobre o corpo que baleei…

Fico imóvel mais uma vez. Sinto as visões se aflorarem em minha mente novamente e só então percebo a morte que previ. Lá está George, morto, estirado ao chão como todos os que combatemos juntos. Seu corpo, perfurado pelos meus projéteis expele sangue por todo o piso a sua volta. O que foi que eu fiz?!… Anna levanta-se, chorando, olha meu pulso a procura do talismã que me deu e, com ar de reprovação, vai em direção à cruz invertida. Eu apenas lamento, engulo meu pranto e me ajoelho orando para a alma de meu amigo. Ainda perturbado, arranco seu crucifixo e cuido para que a cruz vermelha tatuada em seu peito desapareça. Mas antes que possa terminar a oração, sinto sua voz em meus ouvidos, “Não se preocupe amigo, conseguimos nosso objetivo…”.

Um calafrio me percorre toda a espinha quando vejo seu espírito deixando o local. Penso em suas palavras e, num solavanco, viro-me em direção à Anna e… Lara! Como de costume, Anna cuida de suas feridas milagrosamente. Um a um os cortes vão se fechando de forma lenta e cuidadosa. Abaixo e apoio o corpo de Lara a fim de ajudar. As mãos de Anna fazem um trabalho minucioso e difícil. “Ela ainda está viva, mas se eu não conseguir a perderemos…”, ela me avisa. Procuro por alguma forma de ajuda. Fico tenso, preocupado. Mas não posso fazer nada, senão assistir. A cada segundo me coração bate mais forte, enquanto receio que o de Lara pare para sempre. Meu desespero se amplia, meu fôlego não se renova, em minha cabeça uma vida inteira parece passar em poucos minutos.

Então Anna recosta na parede, exausta. Com as mãos banhadas em sangue ela diz que fez o que pôde. Chorando, abraço o corpo de Lara com força e peço a Deus que nos perdoe, peço a Deus que me leve ao invés dela. Sinto seu coração com batidas fracas e cada vez mais demoradas. Acompanho o enfraquecimento de seu organismo, faço de suas sensações meus sentidos e noto o esvair de sua vida.

Não me resta mais nada nessa vida! Não há porque continuar com tudo isso, não há motivo para seguir adiante. Fecho os olhos, vejo a desgraça do mundo. Abro os olhos e vejo a arma de Anna ao chão. Sem titubear, pego o revolver e sinto seu cano frio em minha testa. Olho para Anna e esta se desespera. Meu dedo pressiona o gatilho…

Uma voz acalenta minha alma: “Por que fez isso?”.

Para saber mais sobre Crepúsculo visite o site da Conclave Editora.

Anúncios
 
3 Comentários

Publicado por em agosto 18, 2006 em Contos

 

Tags:

3 Respostas para “Punição

  1. newtonrocha

    outubro 29, 2008 at 4:20 pm

    Isso tem que virar filme ou quadrinhos, Cuty!

     
  2. Cristiano Cuty

    outubro 29, 2008 at 4:21 pm

    Ué! Topa?! Podemos fazer isso juntos… Quem sabe uma HQ em Flash?

     
  3. newtonrocha

    outubro 29, 2008 at 4:22 pm

    hahaha! Não tenho tempo nem para respirar hahaha! Eu pensei de você chamar algum artista iniciante aí de Juiz de Fora! 🙂 Eu posso ajudar no roteiro 🙂

     

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: