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Humanus

07 ago
Imagem do interior do Crepúsculo 2ª Edição

Imagem do interior do Crepúsculo 2ª Edição

Último conto de introdução do Crepúsculo 2ª Edição. Já tivemos a visão demoníaca e a angelical. Agora a visão dos humanos no IV Crepúsculo. Comentem!


HUMANUS

É Natal, o quarto que passo sem meu amor, sem esperanças de constituir uma família, sem motivos para comemoração. Desde que ela se foi, minha vida se tornou um tormento, e a única coisa boa que me aconteceu foi a aprovação de meu projeto de Física Nuclear Aplicada à Rede de Transportes Aéreos. Em breve estarei desenvolvendo os experimentos.

O que me incomoda é esse negócio de a Igreja financiar tudo. As Igrejas! Essas entidades sobrevivem desde os primórdios e, apesar de haver provas através dos tempos de suas atividades torpes, elas ainda se firmam a cada dia mais como instituições prioritárias na ordem mundial e movem legiões de fanáticos por todos os cinco continentes. E tudo em nome de algo que nem sequer existe – Deus.

Como pode o mundo adorar algo que não se pode provar e desacreditar a ciência? Se isso ainda fosse só aqui… Mas, no mundo inteiro, as Religiões regem as leis e movem a sociedade como bem entendem. São como maestros numa grande orquestra.

Desafiam nosso ofício, o tratado científico. Fazem com que pareçamos idiotas quando apresentamos nossas teses totalmente fundamentadas, apontado seus Dogmas como a verdade pura, simples e incontestável. Ainda assim nos usam quando isso lhes é vantajoso e conveniente. Como irão fazer comigo… Mas é o único jeito de nos mantermos ainda vivos e de produzirmos nosso conhecimento.

Viver como ateu é algo difícil hoje em dia, mas tem suas vantagens. O Natal, pelo menos, não passa de um feriado em que posso sair para beber um pouco e quem sabe conhecer uma ou duas garotas. É o que vou fazer hoje, se houver paz nas ruas.

Bem, já são 22:15, vou indo e espero voltar vivo…

Moro num bairro de classe média baixa. O lugar era tranqüilo até se instalarem aqui algumas daquelas “igrejas de fundo-de-quintal”. Isso é o caos! As divergências ideológicas viraram o bairro de pernas para o ar. Só então pude perceber o que os jornais todos os dias exibem como A Guerra Santa. Dá medo de sair às ruas…

Mas eu saio. Afinal de contas, preciso viver…

A noite está limpa, apesar de haver um volume de CO considerável no ar e da elevada temperatura atmosférica – El Niño. Parece que não haverá lutas esta noite como no Natal passado em que um prédio inteiro a dois quarteirões de minha casa foi destruído por um grupo de fanáticos que julgavam ali ser morada de uns Turcos – Islâmicos. A polícia deve estar bem preparada. Pelo menos, eu espero.

A rua, por outro lado, continua suja como sempre foi, pelo menos desde que eu me lembre. Não há moradia suficiente e os becos, pontes e viadutos servem de lar para várias famílias a cada dia mais. As esquinas nunca estão solitárias, sempre há um ou outro pedinte ou marginal ou ainda pior, esses lunáticos visionários que insistem em tentar fazer-nos engolir as pregações ignorantes que vomitam todo o tempo.

Mesmo o mundo sendo comandado por instituições que se dizem solidárias e que trazem a “Palavra da Salvação”, tudo é desgraça e decadência. E a culpa é principalmente dessas Religiões e Seitas.

Pelo menos o bar do Thomas é um dos poucos lugares em que eu ainda me sinto confortável e que não foi corrompido por esse fanatismo louco que ronda o mundo. Lá, com certeza, vou encontrar alguns companheiros ou, quem sabe, até uma companheira.

As ruas estão tranqüilas, provavelmente pelas notícias que ouvi pela manhã de um suposto ataque terrorista nas vizinhanças, a polícia realmente deve estar preparada essa noite. E para minha sorte, os poucos infelizes que ainda circulam por aqui estão preocupados demais, planejando suas táticas de “guerra” para o próximo ano e nem me notaram passar.

Aqui antes era um pequeno cinema. Exibia filmes repetidos e antigos. Bons tempos aqueles… Foi aqui que conheci Isabele. Vínhamos sempre, tomávamos sorvetes e comíamos pacotes de pipoca. Até que foi fechado para reforma e, tempos depois, recebemos a notícia de que se tornaria um templo. Todos mudaram depois desta “novidade” e Isabele ficou paranóica, com medo de que algo ruim acontecesse. Aconteceu!

Ela era por demais ligada ao culto cristão, até que um dia decidiu abandonar tudo de vez, ouvindo meus conselhos. Ela julgava estar se tornando perigoso demais viver presa àqueles Dogmas e começou a tentar entender meu lado.

Nunca entendi como ela foi se enfiar naquele mosteiro budista e nem como, justo naquele dia, o local foi invadido por Assassinos Islâmicos. Não podia ser de outra forma, esses caras são profissionais.

Mas a vida é formada de possibilidades. Infinitas possibilidades, apenas isso!

Parece que o bar está vazio. Poucas luzes…

Há um velho parado na porta, com certeza vai me pedir dinheiro para tomar um copo de conhaque. Não vou negar, é Natal!

Minhas suspeitas se confirmam. São infinitas possibilidades, mas algumas delas são extremamente previsíveis, por isso não acredito em premonições.

O velho parece não se barbear há anos e usa vestes sujas e rasgadas. Coitado! Seu cheiro parece com o das reações de enxofre e deve haver uma civilização inteira de piolhos morando em sua cabeça. Ele me observa com um misto de piedade e angústia e estende sua mão em minha direção. Eu prontamente procuro por algum dinheiro em meu bolso e encontro algumas notas amassadas.

Entretanto o velho aparta minha atitude dizendo que os bens materiais de nada valem quando se é um mensageiro divino. Só então percebo que se trata de mais um louco fanático e apesar de estar quase entorpecido por sua baforada pútrida tento me esgueirar por entre seu corpo e a porta do bar. Mas ele me segura.

“Tu és um condenado, amigo! Tu estás prestes a encontrar o Quarto Cavaleiro, ele está nos teus calcanhares! Tua vida é breve! Fica comigo e te salvará, ouve os mandos do Senhor e terás o reconhecimento no Final…”

Eu forço a passagem, empurrando o lunático. Ele cai em cima de seus entulhos esbravejando e babando. Deixo-o aos berros e, ao entrar, Thomas vem se desculpar pelo transtorno, mandando um de seus seguranças retirar o mendigo dali.

A cena é horrível. O brutamontes agarra o idoso franzinho como um monte de carne podre e o esbofeteia. Eu tento esboçar uma reação, mas Thomas olha para mim com ar de reprovação. Eu apenas observo.

“Cuidado! A Peste há de possuir-te por completo. Tua sina está marcada com o estigma da amargura agonizante. Tu serás mais uma das milhares de vítimas…”
Estas são as últimas palavras que consigo ouvir o louco gritar enquanto o “Leão-de-chácara” o arrasta para longe.

Espantoso a que ponto chegam estes falsos profetas. Sua percepção da realidade se torna algo completamente deturpado. Onde estão os psiquiatras desta cidade? Bem, os hospícios devem estar lotados… Apesar de tudo, o velho não precisava apanhar daquela maneira.

O bar está vazio e Thomas mais uma vez vem se desculpar me oferecendo um “drink” por conta da casa com medo de perder mais um cliente! Mal sabe ele que este é o único lugar que ainda freqüento. Peço um copo de Whisky e logo noto uma bela loira na mesa ao lado, acompanhada de algumas amigas.

Quando Thomas retorna, me diz que ela é nova nas vizinhaças e veio da capital. É uma empresária em ascendência no ramo da informática e está na cidade para abrir uma nova filial.

É disso que gosto no Thomas, sempre bem informado e por dentro das notícias mais extravagantes.

Parece que a noite finalmente vai melhorar!

Realmente é uma mulher linda e de classe. Aquele vestido negro caiu-lhe como uma luva. Mas o que não cairia? Olhos azuis são fatais, assim como saltos altos e um belo decote mostrando as pernas.

Outro Whisky! Acho que já é o terceiro…

Mas a noite é uma criança, e ela não tira os olhos de mim. Vou pedir ao Thomas para colocar “aquela” música e tirá-la para dançar. Isso sempre funcionou. E depois fica tudo mais fácil!

Só que antes vou dar mais uma tragada. Impressionante o efeito do álcool no organismo, como se comporta ao atacar o Sistema Nervoso Central, o bulbo e o cerebelo. Mas meu fígado resiste!

Está na hora. Ela não tira os olhos de mim… É hoje!

Eu me curvo e a convido. Vamos para o centro do salão e dançamos juntos ou quase, pois estou meio desordenado e tonto. As luzes ofuscam minha visão, e o chão parece escorregadio. Tudo gira, até que o local começa a escurecer… e não vejo ou sinto mais nada…

Acordo sem a menor noção de tempo ou espaço e percebo estar num carro, um conversível em alta velocidade. Olho para o lado e vejo a bela loira ao volante, sorrindo para mim com delicadeza.

Ela acaricia meus cabelos e diz que eu bebi demais e que perdi os sentidos, mas que está me levando para um local onde poderá cuidar de mim. Só então eu noto estar sem camisa e com marcas de batom por todo o corpo. Um perfume maravilhoso toma conta do pequeno ambiente, e o vento alivia minha embriaguez.

Ela fala pouco, mas parece ser carinhosa apesar de possuir algo triste em seu olhar. O carro é novo e está limpo como água destilada.

Andamos por uns vinte minutos até que ela pára em frente a um grande portão pouco iluminado e com várias árvores, arbustos e flores à volta. Ela toca um pequeno interfone e pede a chave da suite número seis. Neste momento sinto uma luz piscar acima de minha cabeça e quando entramos pelo portão, olho para trás a fim de descobrir o que é.

Vejo uma placa de luzes onde se lê: Motel. São duas da manhã, a noite realmente promete.

Acordo já à tarde com uma tremenda dor de cabeça e mesmo sabendo de tudo que ocorreu não consigo acreditar, principalmente pelo fato de não encontrar a bela senhorita no quarto.

Vejo apenas a cama desarrumada e um pequeno envelope em seu travesseiro – um bilhete. Abro o papel e noto uma caligrafia trêmula e disforme.

“Aprenda a ouvir os mais velhos…”

Súbito, um desespero toma conta de mim. Procuro por todo o cômodo, mas não encontro qualquer vestígio daquilo que poderia me salvar. Forço a memória, mas não me lembro de tê-lo usado. Abro a carteira e está lá, intacto!

Não! Isso não pode estar acontecendo comigo! Justo comigo, um cientista.

Saio depressa e corro até o laboratório mais próximo do local. Desesperado, faço a requisição do exame e me preparo para a espetada da agulha, nunca gostei de injeções. A enfermeira pede que me acalme e eu respondo que conheço os prejuízos do excesso de adrenalina. Mas dane-se! É minha vida em jogo!

Paguei a mais para receber o prognóstico o mais rápido possível, mesmo assim são horas de espera pelo resultado que parecem séculos. Não almoço, ou como quaisquer coisas que não sejam minhas unhas.

Então o farmacêutico se aproxima com o resultado nas mãos, lacrado. Estou banhado em suor, trêmulo, frio e taquicárdico. Nunca estive assim antes.

Pego o papel com toques delicados como se aquilo fosse uma bomba. Respiro fundo, fecho os olhos, rasgo o lacre e quando olho me sinto no mais terrível dos meus pesadelos até hoje.

Mil vozes parecem gritar aquilo que se tornará minha sina, meu estigma de amargura agonizante.

“H.I.V. Positivo…”

Para saber mais sobre o RPG Crepúsculo visite o site da Conclave Editora.

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Publicado por em agosto 7, 2006 em Contos

 

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