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LEITURA SEMIÓTICA DA CAPA DO LIVRO ‘LIBER DES RITAE’

07 jul
Capa do Liber Des Ritae

Capa do Liber Des Ritae

A semiótica me fascinou. Este trabalho foi apresentado ao professor Francisco José P. Pimenta e aprovado pelo mesmo. Portando, desejo compartilhar um pouco das idéias nele contidas. Comentem!


1. INTRODUÇÃO

Este trabalho tem como foco a análise da capa do livro ‘Liber Des Ritae’, um livro de RPG publicado em 2004 pela editora Conclave. A capa a ser analisada foi produzida por Mozart Couto, um ilustrador juizforano conhecido por seu trabalho como desenhista de revistas em quadrinhos.

Para uma melhor compreensão, uma breve apresentação do material a ser analisado será feita no tópico seguinte, bem como das circunstâncias da encomenda da arte da capa junto ao ilustrador. Segue-se então a abordagem semiótica, observando-se o signo em relação a si mesmo, ao seu objeto e ao interpretante. Por fim, concluímos com notas acerca da produção da peça de arte.

2. MATERIAL DE ANÁLISE

O ‘Liber Des Ritae’ é um livro de RPG (Role Playing Game[1]) que foi escrito por mim, juntamente com o autor Ricardo Marat, fundamentado em várias pesquisas de fundo holístico. Trata-se de uma publicação suplementar (ou complementar) ao livro ‘Crepúsculo[2], na qual os personagens principais são magos e feiticeiros. O livro fundamenta-se em questões místicas e holísticas reais para criar um universo fictício. Assim, é uma obra de ficção, cujo foco principal da publicação é a magia em suas diferentes formas e alegorias.

A capa do ‘Liber Des Ritae’ foi encomendada ao ilustrador Mozart Couto dando bastante liberdade para que este a produzisse. Para tanto, foi informado ao artista do que se tratava o livro, apresentando-lhe alguns detalhes, textos e algumas imagens de referência. O ilustrador entregou à editora cinco esboços de capa, dos quais apenas um foi o escolhido (ver anexo I – capa).

Partindo do pressuposto de que o artista teve total liberdade para a produção da capa, objetivamos, com este trabalho compreender melhor o processo de produção da mesma, buscando averiguar quais foram os pontos determinantes para sua finalização, bem como e, principalmente, os dados semióticos que podemos depreender da imagem.

3. A CAPA NA PRÓPRIA CAPA

Observando a capa em relação a ela mesma, ou seja, o signo em si mesmo, temos a primeiridade. A “primeiridade é o modo de ser daquilo tal como é[3], ou seja, o signo em suas qualidades, existencialidades e aspectos de lei.

Podemos destacar na capa suas cores, fortemente carregadas em tons quentes, como o amarelo e o magenta, e contrastando com o preto, que tornam a imagem bastante escura. A ilustração principal possui uma variação entre o amarelo e o marrom, passando pelo ocre, dando um contraste interno suave e, ao mesmo tempo, fortalecido pela saturação do amarelo nos pontos de luz.

Já a textura de fundo, sobre a qual a imagem principal repousa, apresenta tonalidades que variam entre o vermelho, o vinho e o roxo, com leves nuanças de azul. A utilização dessas matizes provoca um forte contraste com a imagem principal, dando destaque aos elementos da ilustração.

Dentro da ilustração principal a figura mais marcante é a de um homem. Trata-se de uma imagem realista e, portanto, um signo existencial, uma vez que a figura do homem se assemelha a um homem de verdade. Seguindo o mesmo padrão há, ao fundo, a imagem de um candelabro e de livros, bem como um quadro, algumas estátuas e o poleiro de um pássaro (o qual não é possível dizer se é mais uma estátua ou a representação de um pássaro vivo).

Acima (ao centro) e abaixo (à direita) têm-se os títulos do livro. O primeiro indicando a linha editorial de que a publicação faz parte e o segundo apresentando nome do livro em si. Ambos são destacados, na cor branca, o que provoca intensa luminosidade e perceptividade. O título ‘Liber Des Ritae’ encontra-se na porção mais escura da capa e num ponto de marcadamente destacado, o que facilita sua visualização, contrastando com a fonte rebuscada com que é feito.

4. A CAPA E O LIVRO

O objeto da capa é o livro. A capa da publicação tenta, mesmo que de forma extremamente incompleta, apresentar ao possível leitor um pouco do que se trata o livro e o que o leitor provavelmente encontrará nas páginas que se seguem.

A figura humana desenhada na capa do livro, um homem barbudo, de cabelos compridos e revoltos e usando uma espécie de talismã pendurado ao pescoço, assemelha-se, de algum modo aos magos da idade média. A imagem iconográfica pode remeter a uma espécie de feiticeiro moderno, uma vez suas roupas provocam a ruptura entre o medieval e o atual.

Ao fundo, representações de estátuas de criaturas inumanas revelam que há algo além daquilo que é natural. Ou seja, indicam uma referência ao sobrenatural, ao misterioso e àquilo que está além da compreensão humana. Do mesmo modo, a cortina estende-se ainda mais ao fundo, apresenta um indício de há algo a se revelar por trás de tudo. A cortina cobre parte da escrivaninha com os livros e o candelabro. Esconde, também parte de um elemento simbólico – o quadro – indicando que há mais a ser revelado do que aquilo que se apresenta na capa propriamente dita.

A palavra ‘Ritae’, no título, também provoca uma relação indexical (cognitiva) de que o livro possui alguma relação com rituais. De fato, ‘Liber Des Ritae’, vem do latim, cuja tradução seria Livro dos Rituais.

Pode-se se dizer ainda, que o ilustrador “cita” Eliphas Levy, um conhecido místico do passado, ao colocar dentro de sua ilustração um quadro com uma ilustração deste. O quadro, no canto superior direito, possui uma cópia reduzida de imagem que se tornou um símbolo da magia (principalmente da magia negra, pela interpretação da Igreja Católica). Trata-se de uma peça codificada culturalmente como um sinal de magia e, por conseguinte, traz em si a representatividade de que o que a contém, provavelmente contém dados relacionados ao misticismo.

Outra relação simbólica que se depreende, é o fato de haver livros sobre algum móvel ao fundo. Os livros, bem como o talismã no pescoço do homem, são marcados com símbolos místicos, tais como o pentagrama e a estrela de Davi. Ambos os símbolos obedecem a um aspecto de lei, nos quais são tidos como elementos de magia ou de ritos sagrados.

Todos estes fatores acima listados configuram-se naquilo que o signo traz em si acerca do que tenciona representar, ou seja, seu objeto imediato. Em momento algum o signo se completa com relação ao objeto, ou seja, consegue apreender e representar tudo aquilo que há no objeto dinâmico. Uma vez que o objeto dinâmico é fugaz e conduz a uma semiose ilimitada, o signo é ineficiente ao representá-lo. Em sua cadeia semiótica dependente das mentes interpretadoras que terão contato com o signo, este carrega consigo apenas o a “casca” do objeto imediato.

5. A CAPA INTERPRETADA

“É só na relação com o interpretante que o signo completa sua ação como signo[4]. Todo signo depende da mente interpretadora para se tornar signo, só acontece na mente interpretadora. Se o signo não gera um interpretante ele é um mero representámen, ou seja, a mera possibilidade de ocorrência que só se confirma quando percebido por uma mente interpretadora. A mente interpretadora traça as relações entre o signo e o objeto e, destas relações estabelecidas e permeadas por sua experiência colateral, tem-se o interpretante.

Observando a capa em análise, verificamos que imagem produzida pelo artista, associada ao título posicionado de forma estratégica, demonstra que há relações simbólicas entre o signo e o objeto, todavia, marcadamente, a capa possui em destaque fortes relações indiciais para com o tema do livro.

A capa, num sentido conotativo, não é o livro, mas indica do que se trata a publicação. O signo capa não diz claramente, em momento algum, do que se trata a publicação, nem mesmo por seu título. No entanto, recorre a várias relações de indexicalidade para apresentar ao possível leitor indícios de que se trata de uma publicação de cunho holístico e caráter místico. Para informar-se melhor, o leitor deve observar a quarta capa do livro, que apresenta um texto identificando seus pormenores (este se trata de um legi-signo simbólico e argumentativo).

Segundo Pierce há três tipos de interpretantes: o imediato, o dinâmico e o final.

O interpretante imediato, portanto, permanece, sobretudo, na casa dos índices. Não aponta para um parecer definitivo ou mesmo lógica a respeito do que se trata o livro. Mas deixa marcas que podem levar a um interpretante mais completo, dependendo do intérprete que a observa, isto é, o interpretante dinâmico.

Já o interpretante final é de tal forma fugaz e infinito que é incapaz de ser alcançado. Do ponto de vista da análise semiótica, seria tudo aquilo que o signo quer representar. Perpassa pelos interpretantes gerados por mim (baseado em todos os conceitos pesquisados para a produção do livro), quando da encomenda da capa ao ilustrador, pelo ilustrador, quando da elaboração da imagem e sua observação por infinitas mentes interpretadoras numa teia semiótica sem limites.

6. CONCLUSÃO

A grande dúvida que se abatia quando do início da produção deste trabalho era descobrir se a capa produzida para o livro correspondia aos anseios determinados pelo tema da publicação. Quanto à beleza e à qualidade da ilustração não há dúvida. Mas pesando na capa antes de conhecer a semiótica a imaginava como um símbolo do livro.

À luz da semiótica, no entanto, podemos concluir que a capa funciona, na verdade, como fumaça para o fogo, ou seja, ela aponta o tema do livro, sem revelar-lhe por completo. Decerto, este era o objetivo desde o início, porém não havia uma percepção consciente de minha parte de que assim o desejava. O ilustrador soube captar a atmosfera em que a publicação estava envolta e deu a ela uma capa condizente.

A capa é um signo que revela todo o mistério existente no livro.


7. BIBLIOGRAFIA

1) NÖTH, Winfried. Panorama da Semiótica: de Platão a

Pierce. São Paulo: Annablume Editora, 1995.

2) SANTAELLA, Lúcia. Semiótica Aplicada. São Paulo:

Pioneira Thomson Learning, 2002.

3) SANTAELLA, Lúcia & NÖTH, Winfried. Imagem – Cognição,

Semiótica, Mídia. São Paulo, Iluminuras, 1998.

4) FARINA, Modesto. Psicodinâmica das cores em comunicação. 4ª Edição, São Paulo,

Edgard Blucher, 2002.

[1] Role Playing Game (jogo de representação) – trata-se de um jogo em que os jogadores representam personagens por eles próprios criados em uma história sem roteiro pré-estabelecido.

[2] OLIVEIRA, Cristiano Chaves de. Crepúsculo. 3ª Edição, Juiz de Fora, Conclave Editora, 2004 – livro de RPG cujo tema trata de um universo atual e apocalíptico, onde forças do bem e do mal, representadas por ordens religiosas, seitas e sociedades secretas, travam uma guerra santa em nome de suas crenças.

[3] NÖTH, Winfried. Panorama da Semiótica: de Platão a Pierce – citando Pierce (CP 8.328), pg. 65.

[4] SANTAELLA, Lúcia. Semiótica Aplicada – pg. 37.

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Publicado por em julho 7, 2006 em Devaneios

 

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