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COBERTURA TELEVISIVA DA MORTE DO PAPA

04 jul

O mundo viu a cortina se fechar. O Papa, segundos antes, tentara pronunciar algumas simples palavras, mas a voz não saiu. Com suas mãos contorcidas e uma expressão dolorosa, o Papa não conseguiu proferir sua última benção aos que o observavam na janela. O microfone foi retirado, a cadeira de rodas puxada para trás, desaparecendo nas sombras. A cortina se fechou. Era o fim do espetáculo… Ou não!

A cena descrita acima foi mostrada centenas de milhares de vezes, por um sem número de emissoras de TV nas últimas semanas, em todo o mundo. Outros tantos jornais, revistas e periódicos virtuais publicaram fotos daquele momento. Mesmo as rádios chegaram a descrever o ocorrido para seus ouvintes se lembrarem da imagem estabelecida na ocasião. Uma imagem cuja força transmitiu a mensagem clara do fim da vida de Karol Wojtyla. Mas não o fim do espetáculo…

Ao mesmo tempo em que as últimas lufadas de ar preenchiam os pulmões do Papa polonês, tendas e mais tendas eram armadas nas proximidades da praça de São Pedro. Centenas (ou milhares) de redes de comunicação de todo o mundo se aprontavam para transmitir a notícia da morte do patriarca da Igreja. Finalmente, numa tarde de sábado, ele faleceu.

Sim, finalmente! Pois a cobertura realizada na “pré-morte” criou um clima de ansiedade em todos que acompanhavam o fato. A cada aparição da repórter Ilse Scamparine na tela da Globo sempre surgia um que perguntava: “- e aí, morreu?”. A morte do Papa foi aguardada e acompanhada pela mídia como os dias que antecedem uma final de Copa do Mundo. Enfim, quando chegou o “grande” momento, as emissoras puderam respirar aliviadas e colocar para funcionar todo o aparato humano e tecnológico previamente montado para aquele que pode ser o maior acontecimento do ano de 2005 (afinal, não temos Copa ou Olimpíadas neste ano).

Com a velocidade de um Super-Homem, pudemos ver um William Bonner desajeitado apresentar o Jornal Nacional de Roma. Sob um “cromakey” que o mostrava na praça de São Pedro, vestindo um sobretudo de lã (o estúdio estava frio?), Bonner, que há muito esquecera como se segura um microfone, noticiava os últimos fatos do Vaticano. A Globo destacou aqueles que considera seus melhores profissionais para cobrir o evento. Além de Bonner, Caco Barcellos e Pedro Bial compuseram a equipe na Itália. O evento foi exaustivamente transmitido, em todos os seus pormenores e com informações em tempo real. Caco Barcellos chegou a acompanhar, loucamente, a fila de 18 horas que as pessoas estavam enfrentando para ver o corpo embalsamado do Papa.

Numa outra vertente, a rede Record, por ordem de seu presidente, Edir Macedo, limitou-se a transmitir a notícia de forma seca e sem maiores alardes. Apenas a presença do jornalista Boris Casoi (cuja produção do jornal é independente da emissora) garantiu que informações mais completas sobre o funeral do Santo Padre fossem transmitidas pelas Record. No entanto, essa transmissão limitada não tratou-se de uma postura jornalística da rede, mas sim de uma orientação de cunho religioso. A Record, que pertence ao maior grupo evangélico do país por questões religiosas, uma intolerância que há muito não se via no país.

Já as outras duas grandes emissoras populares do Brasil – Band e SBT – cumpriram seu papel jornalístico numa linha muito parecida com a adotada pela rede Globo, porém com menos inserções. A Band chegou ao ponto de preparar debates com pessoas ligadas à Igreja, como numa espécie de mesa redonda depois de uma rodada do campeonato brasileiro.

Pois bem, o que dizer dessa supercobertura da morte do Papa? Simplesmente um Show! A Globo teve seus problemas de última hora, os embaraços do som que chegava atrasado e um Fantástico recheado de erros. São os percalços que se enfrenta numa transmissão de ponta, em tempo real, com informações extremamente detalhadas e ao vivo em grande parte das vezes.

Mas é aí que devemos nos perguntar até que ponto tudo isso é válido. Que o Papa João Paulo II foi uma figura extremamente importante de nosso tempo, não há dúvida. Mas havia tanto mais a se dizer sobre ele que já não tinha sido dito? Num momento em que uma chacina acontece no Rio de Janeiro, tirando a vida de mais de 30 brasileiros. Logo após a intervenção do governo federal sobre a saúde carioca (lembra disso?). Numa hora em que temos um Severino Cavalcanti nomeando seu filho para um cargo público e defendendo o nepotismo? E a votação da MP 232?

Pois é, tudo isso passou como o vento nessas últimas semanas. Pois o Pop, ou melhor, o Papa, foi o que prevaleceu e como prevaleceu. E vai continuar prevalecendo, pois em breve vários senhores de mantos negros e chapeuzinhos vermelhos vão se trancar na Basílica de São Pedro para escolher o novo chefe da Igreja. E de todas as notícias que preencheram os pequenos espaços que não foram ocupados pela morte do papa, nenhuma se fixará nas mentes dos telespectadores de forma tão contundente quanto a imagem de João Paulo II sendo puxado em sua cadeira com as cortinas se fechando…

No final, todo o circo armado em torno da morte do Papa pelo menos serviu para uma coisa boa: o casamento do Príncipe Charles com a, no mínimo estranha (para não dizer feia), Camila Parker Bowles, não deu o “Ibope” que todos esperavam…

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Publicado por em julho 4, 2006 em Opinião

 

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