Não é de hoje que a indústria cinematográfica descobriu uma nova fonte para seus roteiros: as histórias em quadrinhos. E graças aos Deuses os produtores de Hollywood decidiram se enveredar pelos caminhos da banda desenhada! Muita coisa legal foi para as telonas. Mas desde os primórdios até hoje, tivemos uma boa dose de desacertos nas transferências dos quadros para o celulóide. Mas a idéia aqui não é me ater aos desacertos e sim falar um pouco da evolução do cinema de HQ.
É claro que houve uma sensível melhora nos filmes baseados em HQs atualmente. Se pensarmos no Punisher de 1989 (aquele com o Dolph Lundgren) ou no primeiro filme do Quarteto Fantástico (em que o Coisa parece de plástico) e compararmos com suas versões mais recentes, certamente perceberemos a sensível melhora. Por outro lado, quando pensamos no Superman I (com o eterno Cristopher Reeve) e o comparamos com o atual, sentimos que a magia do primeiro filme não está nem de longe presente neste (leia minha resenha para Superman Returns aqui). E o que esses exemplos têm em comum? Que relação há entre filmes baseados em HQ que não dão certo e os que dão? É claro que em filmes de Super-heróis os efeitos especiais contam, mas não é isso que faz a diferença… Certamente que não!

Doutor Manhatan em Watchmen
A minha tese é de que o grande problema está nas invencionices de produtores, diretores e atores. Todos querem colocar a sua marca, o seu “algo mais” na produção. E no final o que se vê é um personagem totalmente desfigurado, vivendo num cenário contraditório e se deparando com situações que nós provavelmente numa veríamos numa HQ. E são invencionices mesmo, das mais descabidas. Que fã não quis arrancar os cabelos quando viu o Superman jogando o seu escudo para aprisionar um Kriptoniano em Superman II? E o bumbum do Batman, junto com o bat-creditcard? E o Alan Quartemen de Sean Connery, que não apresentava nem um traço da decadência apresentada na HQ da Liga Extraordinária? Aliás, o que é que o Dorian Gray e o Tom Sawyer estão fazendo lá?! Tenho a sensação que os responsáveis pelos filmes não conseguem alcançar alguma profundidade nos personagens e nos ambientes em que eles estão imersos e tentam lhes imputar novas características, numa tentativa estúpida de torná-los atraentes para o grande público.
Na contra-mão desses filmes reajustados pelas mãos inábeis de cineastas, temos exemplos extraordinários de filmes em que a essência de cada personagem, cada detalhe da ambientação foi captada de forma exemplar e transferida para a telona com louvor. Filmes como Batman – Begins, Homem-Aranha 1 e 2, V de Vingança, tiveram lá suas adaptações, seus exageros e suas “licenças poéticas”, mas a essências de seus personagens estão ali, no filme, de modo inegável. Mesmo no caso do V, em que a história é muito diferente da HQ em diversos pontos (às vezes até melhor), não há uma deturpação do que é o personagem. Seus ideiais, sua história, sua psiquê estão ali, em movimento, vivos (e cá pra nós, tem coisa melhor para fã do que ver seu personagem favorito em carne-osso-e-celulóide?). E se um personagem faz sucesso nas HQs durante anos a fio, porque mudar seus aspectos para o cinema? Afinal, como disse algum teórico da arte sequencial, cinema é HQ em movimento!

Cosplay do Hellboy na Comic Con
E a interação cinema / HQ é algo excelente para ambas as partes. A roupagem dada pelo cinema muitas vezes deixa as HQs muito mais agradáveis. Eu, por exemplo, não suporto mais ver o Wolverine com aquela roupa amarela e azul. O uniforme baseado no filme é muito mais interessante e verossímil. O visual do Watchmen no filme, também parece muito mais bonito do que na HQ (apesar de ser bem semelhante). Para comprovar isso, basta ver as fotos da Comic Con 2009 – New York feitas pela @karlanogueira. Os cosplayers fazem fantasias de personagens baseadas nos filmes e não nas HQs.
Bem, se você acha que filmes baseados em HQs ainda não representam um grande filão no mercado cinematográfico da grande massa, dê uma olhada nessa “listinha” da wikipédia: http://en.wikipedia.org/wiki/List_of_films_based_on_English-language_comics.
Por agora, fico aguardando a estréia de Watchmen, no dia 06 de março. Para quem olha pela primeira vez, parece uma história de fantasiados coloridos e sem o menor fundamento, mas, pelo menos a HQ, é uma obra de extrema profundidade, dicotomias e, sobretudo, de questionamentos sobre as escolhas humanas. Espero que o filme mantenha a mesma essência.
Post Scriptum:
1) Alan Moore, autor de Watchmen, V de Vingança, A Liga Extraordinária e Do Inferno, desaprova completamente as adaptações de suas obras para cinema. Se dependesse dele essas obras nunca teriam ido para as telonas. Ainda bem que não depende dele!
2) V de Vingança, juntamente com O Cavaleiro das Trevas, são para mim as melhores adaptações de quadrinhos para o cinema até hoje. V de Vingança é tão bom que, como diz o @sandrim, até dublado no SBT é ótimo!
3) Outras grandes adaptações, na minha opinião, são: 300, Punisher (de 2004 – digam o que quiserem, mas adoro aquele filme!), Hellboy, Homem-Aranha 1 e 2 (aqui há uma relação de cumplicidade com o personagem – cresci lendo Homem-Aranha), Batman Begins, Batman 1 (apesar do Michael Keaton), X-Men 2 (ver o Wolverine em ação de verdade foi bom demais) e Conan: O Bárbaro (baseado tanto nas HQs, quanto nos livros de Robert E. Howard).